TEU AMOR
Hilton Junior

O que chamas de amor
É palavra marcada
Tinta manchada
Recusa não revelada

Quando me chamas de amor
É loucura e mal dizer
É luxúria e prazer
É a vida renascer

O amor que tens
De ti não vai além
Sentes por ninguém
Não vale um vintém
Este é um micro-conto em forma de Carta:

Carta 

       Querido Amigo,

Hoje é dia de festa.

Faz trinta anos que nossos caminhos se cruzaram. Lembro-me bem, como se fosse hoje, a ocasião em que, pela primeira vez, trocamos algumas palavras.

         Num primeiro momento achei-o um tanto austero, senhor da verdade mas, com o passar do tempo fui-me acostumando com o teu jeito e vi que não conhecias nada além do senso comum. Que lias tão somente a Manchete do pior jornal da banca e se vangloriava de ter sido maior contribuinte daquela noticia.

         Como eram bons aqueles tempos, como me fizeste feliz, com suas manias e com todo o seu conhecimento das ciências ainda não desvendadas. Mas a principal virtude que carregavas em tua existência era a amizade que tinhas por teus companheiros de papo, dando conselhos e contando todas as tuas aventuras como jornalista.

         E trinta anos se passaram, velho amigo, e eu ainda não consigo esquecer-te. As lembranças que tenho daquela época guiaram minha vida até hoje e tornei-me professor de letras em uma universidade.

         Escrevo-te hoje pois, tive noticias de que estas passando necessidade, o que me faz lembrar das épocas que dizias ter empregos em todos aqueles jornais e, família abastada no interior do Estado. O que houve com tudo isso, velho amigo?

         Respondo aos teus apelos da mesma maneira que respondeste aos meus no momento mais importante da minha vida. Digo que agora estou passando por um momento de transição emocional e estarei indisponível durante algum tempo. Mas não perca as esperanças, pessoas com a fortuna que tens em conhecimento e sagacidade, não passam necessidades por longos períodos.

 

O destinatário se dizia jornalista abastado. Na verdade era um grande contador de histórias. Nunca tivera um emprego fixo, vivia de fazer bicos.

Mas um dia perdeu tudo o que tinha, e suas trapaças acabaram por condená-lo.

         O remetente era um rapaz simples. Perdera seu grande amor e o pouco dinheiro que tinha ao ouvir os conselhos do jornalista. Que tentou conquistar sua amada e levou o seu dinheiro.

         Ao remetente restaram as palavras como vingança. Derramou uma lágrima ao responder os apelos do velho amigo. O amor perdido ainda doía-lhe no peito.

 

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